A Conta da Negligência: Crise Climática e a Falha do Planejamento Urbano
17/03/2026

Editorial IDP | Março 2026 Texto de Julia Bonnet
Iniciamos o ano com mais uma tragédia decorrente da falta de planejamento urbano e de destinação orçamentária para o enfrentamento à crise climática. No final de fevereiro, temporais atingiram o estado de Minas Gerais, com maior gravidade nas cidades de Juiz de Fora e Ubá. Foram inicialmente registradas cerca de 70 ocorrências na região de Minas Gerais. Em Ubá, onde o rio atingiu a marca histórica de 7,82 metros, há registros de mortes, desaparecidos e destruição de pontes, moradias e serviços essenciais.
O volume acumulado nos dois primeiros dias de chuva atingiu 584 milímetros, sendo quatro vezes maior do que a média histórica do período na Zona da Mata mineira. Segundo o Corpo de Bombeiros e dados coletados pela Defesa Civil, foram registradas mais de 211 ocorrências relacionadas a deslizamentos, soterramentos e riscos estruturais nos primeiros dois dias; ao menos 3 mil pessoas estão desabrigadas.
Em anos anteriores, já acompanhamos situações similares. Em novembro de 2025, no estado do Paraná, a cidade de Rio Bonito do Iguaçu sofreu com um tornado de grandes proporções que causou uma destruição equiparada a cenários de guerra, resultando em sete mortes confirmadas, 26 pessoas internadas e mais de 1.000 desalojadas. De acordo com o Ministério da Saúde, quase 80% da população do município foi diretamente atingida.
O perímetro urbano foi o mais afetado, incluindo comunidades do MST, além de outras localidades em municípios próximos, como Porto Barreiro e Guarapuava. O município possui uma área plana que, de acordo com climatologistas, é mais suscetível à ocorrência de ventos fortes; ainda, devido à sua proximidade, o Rio Paraná recebe correntes de ar frio vindas da Argentina, criando um ambiente propício para a formação de tornados. De acordo com dados da SOS Mata Atlântica e da plataforma MapBiomas, o desmatamento na cidade foi de aproximadamente 60% do território nos últimos 30 anos, sendo uma das cidades brasileiras que mais desmatou o bioma da Mata Atlântica.
Após o Brasil ter sediado a COP 30, as discussões sobre a crise climática estão ainda mais latentes. Tragédias como as ocorridas em Minas Gerais, no Rio Grande do Sul e no interior do estado do Paraná trazem, mais uma vez, a preocupação e a necessidade de discussão e implementação de novas formas de produção e organização social do espaço urbano, assim como alternativas locais de enfrentamento à crise climática a partir dos territórios.
Pelo Instituto, fazemos uma reflexão crítica sobre as contradições socioambientais do modelo de urbanismo consagrado em Curitiba, principal cidade em que atuamos e que é frequentemente mencionada como referência em planejamento urbano. A partir da realidade das ocupações populares em áreas ambientalmente sensíveis — como áreas de preservação permanente e regiões sujeitas a alagamentos — observamos como a lógica do mercado e a seletividade territorial empurram populações vulneráveis para territórios de risco.
A crise climática amplia desigualdades já existentes, sendo as periferias urbanas as mais afetadas. Isso ficou demonstrado nas enchentes no Rio Grande do Sul, dados coletados pelo Núcleo do Observatório das Metrópoles cruzaram mapas do Censo e perceberam que as regiões atingidas concentram, principalmente, populações de baixa renda e pessoas negras.
Além de eventos que desencadeiam tragédias de proporções gravíssimas, a variação de temperatura nas cidades também é uma realidade que precisa ser considerada no debate de construção de políticas públicas urbanas. As ondas de calor atingem as populações periféricas com maior intensidade; assim, a garantia de uma moradia digna é uma das formas de assegurar condições mínimas de conforto, segurança, higiene e saúde.
Mais do que um desastre natural, os recentes acontecimentos alertam sobre os impactos da crise climática e a ausência de um planejamento urbano inclusivo, especialmente para a população mais vulnerável. O aumento da frequência e da intensidade de eventos climáticos extremos é uma realidade que não pode ser ignorada, exigindo medidas efetivas para proteger a vida humana e o meio ambiente.
Frente a isso, observam-se processos de auto-organização por meio dos quais essas comunidades desenvolvem projetos e grupos de formação para o enfrentamento direto às dificuldades sofridas. Como exemplos, temos o grupo de brigadistas voluntários quilombolas do território Kalunga, em Goiás, que implementa técnicas ancestrais para o combate a incêndios, e a cooperativa "Revolusolar", formada por moradores da favela da Babilônia, no Rio de Janeiro, que utiliza tecnologia e materiais reciclados para fabricar placas de energia solar.
Em Curitiba, os movimentos sociais por moradia têm cumprido o papel de denunciar a falta de políticas habitacionais adequadas e a negligência do poder público em garantir serviços essenciais, dada a situação de irregularidade de muitas moradias, o que agrava a qualidade de vida das pessoas que vivem nesses espaços. Nesse contexto, denunciam, também, a imagem de "cidade modelo" e "cidade inteligente" pela qual Curitiba é reconhecida externamente.
Frente a isso, são necessárias respostas do Estado por meio de políticas efetivas. Em projeto recente, o Governo Federal coloca isso em pauta com o Projeto Adaptação, uma parceria entre o Ministério das Cidades e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), envolvendo o IPPUR e o Observatório das Metrópoles. O objetivo é apoiar municípios no aprimoramento do planejamento urbano, incorporando a perspectiva climática.
Destaca-se que dispositivos urbanísticos já existentes, que possibilitam a construção de cidades menos desiguais, precisam ser implementados para que se possa avançar na construção de cidades que se adequem a toda a sua população e mantenham a preservação ambiental, evitando futuras tragédias.
REFERÊNCIAS
https://www.gov.br/mdr/pt-br/noticias/socorro-a-caminho-do-parana-apos-tornado
https://www.observatoriodasmetropoles.net.br/as-cidades-em-tempos-de-emergencia-climatica/
https://www.redus.org.br/projeto-adaptacao
https://mab.org.br/2026/02/25/mab-expressa-solidariedade-as-vitimas-das-enchentes-em-mg/